Início Mundo Ex-ministro do Brasil nega ter agradecido à Venezuela doação de oxigénio

Ex-ministro do Brasil nega ter agradecido à Venezuela doação de oxigénio

 

O ex-ministro Ernesto Araújo depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado brasileiro, que investiga alegadas omissões do Governo na pandemia, assim como a responsabilidade pela escassez de oxigénio para pacientes com covid-19 em Manaus, capital do Amazonas.

Ao ser questionado pelo vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues, o ex-ministro afirmou que não fez nenhum contacto com o Governo da Venezuela para pedir apoio humanitário para a crise de oxigénio, nem para agradecer a ajuda oferecida.

Em janeiro deste ano, camiões enviados pelo executivo venezuelano, presidido por Nicolás Maduro, entregaram milhares de metros cúbicos de oxigénio em Manaus, o que ajudou a atenuar a situação na região.

Posteriormente, Maduro chegou mesmo a anunciar o envio permanente de oxigénio para Manaus no âmbito do combate à pandemia, que já fez 439.050 mortos e 15.732.836 infetados no Brasil.

Durante a inquirição a Araújo, que foi ministro das Relações Exteriores entre janeiro de 2019 e março passado, o presidente da CPI, Omar Aziz, criticou o Governo brasileiro por não ter cedido aviões para transportar o oxigénio venezuelano, que teve de ser carregado através das difíceis estradas que atravessam a região amazónica.

“Não permitiram que um avião fosse lá. Teve que vir de estrada. Enquanto estava morrendo gente sem oxigénio em Manaus, o oxigénio venezuelano estava vindo por estrada. Se o Ministério das Relações Exteriores tivesse interferido, numa hora um voo da FAB [Força Aérea Brasileira] ia e voltava”, frisou Aziz, acrescentando que o transporte por estradas atrasou a chegada do consumível em cinco dias.

Em sua defesa, o ex-governante disse que o Ministério das Relações Exteriores “não age de maneira autónoma em temas de saúde” e acusou o executivo do Amazonas de não responder atempadamente aos pedidos de esclarecimento feitos pelo Governo Federal.

No depoimento, Ernesto Araújo confirmou ainda que o Ministério enviou um telegrama ao Governo da Índia, pedindo a cedência de matéria-prima para produção de cloroquina, um medicamento sem eficácia contra a covid-19, mas amplamente defendido pelo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Araújo responsabilizou ainda o Ministério da Saúde, na ocasião liderado pelo general Eduardo Pazuello, por toda a estratégia para obtenção de vacinas contra a covid-19, que atualmente se mostram escassas.

O depoimento de Pazuello, que foi o terceiro ministro da Saúde do atual Governo, está marcado para hoje e é um dos mais esperados na CPI, uma vez que é apontado como um dos responsáveis por não ter procedido à compra atempada de vacinas, pela recomendação de tratamentos ineficazes contra a doença ou pela crise de oxigénio.

“A situação está difícil para Pazuello (…). A melhor coisa que ele teria a fazer é colaborar com a CPI. Se não, todos os elementos apontarão ele como responsável pela morte de centenas de milhares de brasileiros”, indicou o senador Randolfe Rodrigues, avaliando que o atual Governo “abandonou” o general.

Contudo, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu a Pazuello o direito de não responder a perguntas que possam produzir provas contra si.

Um pedido semelhante, para permanecer em silêncio na CPI, foi feito por Mayra Pinheiro, uma secretária do Ministério da Saúde e defensora do uso da cloroquina, mas foi negado pelo STF.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.391.849 mortos no mundo, resultantes de mais de 163,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Leia Também: Brasil desarticula rede de narcotráfico que passava por Portugal