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Pilali foi ao porto ver o mar e acabou por acolher deslocados em casa

 

“A pessoa quando sente que esse aí é um ser humano como eu, pronto, tem mesmo de acolher. Não as posso deixar numa sombra. Quando eu nasci e fui também criança, ainda por cima vem aí o tempo chuvoso. Onde é que elas iam parar? Preferi acolhê-las”, diz hoje à Agência Lusa Pilali Silva, 46 anos, olhando para as famílias que ocupam uma habitação junto à sua, desde o mês passado.

Depois do ataque de 24 de março, “fui lá [ao porto de Pemba] naquela de ver a população, só porque tinha ouvido que havia pessoas que estavam a ser ‘descarregadas’ de um navio”, lembra.

A curiosidade levou-o a ir ver a chegada de um dos primeiros barcos que trazia deslocados de Palma, que fugiram da vila quando foi invadida pelos insurgentes, numa ação reivindicada pelo movimento terrorista Estado Islâmico.

Contudo, o sentimento inicial foi substituído pela vontade de ajudar algumas destes pessoas, quando viu umas “famílias isoladas”, cinco mulheres com os seus seis filhos.

“Perguntei e elas disseram que não tinham família”, recorda. “Como tenho esta casa vazia, pronto. Disse-lhes ‘vamos lá, vamos juntos’. Acolhi-as aqui. Disse-lhe para entrar na ‘chapa’ [transporte público], paguei os dez meticais (0,14 euros) e trouxe-as para aqui”, explicou o morador em Pemba, capital de uma província flagelada pelos ataques dos insurgentes, que já causaram 700 mil deslocados.

Quando chegaram, Pilali Silva deu-lhes 700 meticais (9,50 euros) para comprarem trigo, arranjou-lhes umas panelas e equipamento para fazer lume, para que se alimentassem.

São duas casas térreas com paredes de barro alaranjado que se confundem com o solo. Estão dentro do mesmo terreno, delimitado por uma cerca feita de bambu. No meio há uma corda para colocar a roupa a secar, quase cheia de roupa da família de Pilali e das novas “vizinhas”.

Duas das “irmãs” – palavra utilizada por Pilali para descrever as deslocadas que acolheu – estavam sentadas no pequeno alpendre da casa onde estão a viver. Outra estava encostada a uma das paredes e as restantes duas caminhavam à volta do terreno com dois bebés ao peito a dormir.

Receber mais deslocados, no entanto, está fora de questão, porque, “dos três quartos que tem, pequeninos”, apenas sobra um. O dinheiro não estica e a vida de Pilali também não é fácil.

Vende sabonetes e cebolas com a ajuda da mulher, para poder comprar “o pão de cada dia” e com 20 meticais (0,27 euros), que é o que às vezes faz por dia, apenas consegue comprar “aqueles peixinhos pequeninos” para os filhos.

Mais não se faz, porque mais é impossível e apenas com a ajuda da vizinhança ou até do Governo de Moçambique seria possível obter mais apoio para o grupo de mulheres.

O auxílio do Governo “é o que mais quero, para as minhas ‘irmãs’ poderem ter qualquer coisa para sobreviver, ou então dizer ‘está aqui um terreno, venham para aqui construir'”, exemplifica.

Enquanto essa solução mais definitiva não chega, as mulheres vão vivendo do que conseguem racionar a partir do que compraram com os poucos meticais que Pilali lhes deu.

A chuva tem sido a constante durante os últimos dias na província de Cabo Delgado e durante as próximas semanas a tendência vai acentuar-se e agravar quem a situação de quem vive ao relento. Um problema que estas mulheres já não têm de se preocupar.

A cidade de Pemba tem sido o principal destino das populações que fogem dos ataques armados que começaram em 2017 em distritos mais a norte da província, albergando atualmente quase o dobro da sua capacidade.

A violência armada em Cabo Delgado começou há mais de três anos, mas ganhou uma nova escalada há duas semanas, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, que está a cerca de seis quilómetros dos multimilionários projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária persistente na província, desde o início do conflito, de acordo com dados das Nações Unidas.

 

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