Início Mundo Distúrbios ameaçam estabilidade na Irlanda do Norte, alerta académico

Distúrbios ameaçam estabilidade na Irlanda do Norte, alerta académico

 

“O processo de paz é um processo, é um trabalho contínuo que exige constante atenção por todos, não só na Irlanda do Norte, mas no Reino Unido, República da Irlanda, União Europeia e Estados Unidos”, disse à agência Lusa Anthony Soares, diretor do Centro de Estudos Transfronteiras (Centre for Cross Border Studies), sediado em Armagh, a cerca de 70 quilómetros de Londres.

O Centro é uma organização independente criada em 1999, após o acordo de paz de 1998, que tem como missão acompanhar e apoiar a cooperação transfronteiriça entre a Irlanda do Norte e a Irlanda, mas também as relações entre a Ilha da Irlanda e Grã-Bretanha (formada pela Inglaterra, Escócia e País de Gales). 

Embora a situação não se compare àquela que encontrou em 1991, quando chegou ao território para fazer um doutoramento e onde depois deu aulas de português, diz que os recentes distúrbios são preocupantes. 

“Estamos numa situação muito melhor, mas que poderá rapidamente piorar porque o processo de paz é uma coisa frágil. Preciosa, mas frágil”, vincou.

Políticos de todos os quadrantes da Irlanda do Norte condenaram a violência registada ao longo de várias noites, inicialmente instigada em áreas protestantes mas que se espalharam até às ruas limítrofes de bairros católicos, causando preocupação com uma possível escalada dos confrontos.

Na noite de quinta-feira, a polícia respondeu com canhões de água (proibidos no resto do Reino Unido) a uma multidão de jovens, neste caso aparentemente do lado republicano, que atiravam pedras e fogo de artifício no oeste de Belfast.

O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, juntou-se aos apelos por calma lançados pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e pelo seu homólogo irlandês, Micheál Martin, cujos países estão envolvidos no processo de paz de 1998, que encerrou décadas de conflito armado na Irlanda do Norte.

“O que há de novo é uma nova intensidade. Essa nova intensidade foi reconhecida pela polícia, que não vê este nível de violência há vários anos. Tivemos incidentes e violência em anos recentes, mas é a intensidade. A violência que está a ocorrer num novo contexto, quer seja em termos de pandemia covid-19, mas também do ‘Brexit'”, explicou à Lusa Anthony Soares. 

Para evitar uma fronteira física com a vizinha República da Irlanda, que faz parte do mercado único mas cuja fronteira aberta é um dos pilares do processo de paz, Londres e Bruxelas negociaram uma solução que prevê um alinhamento da Irlanda do Norte com a UE e controlos acrescidos no trânsito de bens com o resto do Reino Unido. 

Segundo Soares, esta é “uma situação vista por muitos unionistas como um assalto à sua própria identidade e à posição da Irlanda do Norte como parte integral do Reino Unido” para a qual os políticos, em particular o Governo de Boris Johnson não preparou a população. 

“O ‘Brexit’ cria problemas de enorme gravidade para a Irlanda do Norte, principalmente em termos sociais, não é só em termos económicos”, afirma. 

Outra origem dos recentes distúrbios é a política interna, em particular a rivalidade entre os dois principais partidos, o Partido Democrata Unionista (DUP), formado por ‘unionistas’ leais à coroa britânica, e o Sinn Féin, composto por nacionalistas republicanos favoráveis à unificação com a Irlanda. 

A chefe do DUP e do governo autónomo, Arlene Foster, critica a número dois e dirigente do Sinn Féin, Michelle O’Neill, por ter participado num funeral de um antigo dirigente do IRA onde estiveram cerca de 2.000 pessoas em junho, violando as restrições a ajuntamentos relacionadas com a pandemia-covid-19.

 O pai de Foster quase que morreu num ataque do grupo paramilitar republicano irlandês e os unionistas consideraram o evento como uma provocação. 

Os dois partidos lideram o governo autónomo em coligação, tal como foi determinado pelo processo de paz, mas só formaram o executivo no início de 2020, tries anos depois das eleições regionais. 

“O que temos visto é uma falência política” com consequências sociais e económicas, lamentou o académico português. 

“Claro que são partidos políticos em oposição, têm pontos de vista opostos, mas há esta exigência porque estamos em situação de pós-conflito. Deviam ter um diálogo positivo e construtivo, mas até agora têm-se revelado incapazes de ter esse tipo de diálogo”, acrescentou.

A Irlanda do Norte volta a realizar eleições para a Assembleia Regional no próximo ano, em 2022. 

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