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"Pandemia expôs duramente velhas formas de pobreza"

 

“Até agora, pode dizer-se que não existe uma emergência de novas formas de pobreza”, afirmou em entrevista à Lusa, manifestando receio de que as respostas à atual crise possam não ajudar a resolver problemas antigos e a precaver o futuro.

“Temos a cair na pobreza quem? Os precários absolutos, foram os primeiros. Em segundo lugar, muitos trabalhadores independentes ou empresários de si próprios ou pequenos empresários. Há muitos pequenos empresários e pessoas nestas condições revoltantes da matriz económica e de desenvolvimento que o país tem”, referiu.

Crítico de uma matriz “muito centrada nos serviços”, nomeadamente no turismo — um dos setores mais atingidos -, o sociólogo sublinhou que a desativação destas atividades provocou “uma situação de desproteção absoluta” das pessoas: “Surgiram na sociedade com uma situação de pobreza profunda em muitos casos, que em parte está escondida”.

Uma parte destes trabalhadores, referiu, “não entra” nas estatísticas.

“Há milhares de pessoas que aparecem todos os dias à porta de instituições que servem refeições e que dão apoio que não estão contabilizadas nos números do desemprego (…) o drama é justamente esse, é que isto está associado a fatores estruturais que não estão a ser alterados”, garantiu Carvalho da Silva, investigador no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

Para o ex-dirigente sindical, a grande pobreza depende, em primeiro lugar, de salários baixos e desproteção social de uma parte significativa da população, a par de uma “precarização do trabalhado” que, na sua opinião, é “demolidora”.

“Tudo isto associado a uma matriz de desenvolvimento que não dá futuro”, frisou.

Carvalho da Silva, que dirigiu a CGTP-IN durante 25 anos (1987 – 2012), primeiro como coordenador e depois como secretário-geral, defendeu a necessidade de se olhar para as questões da pobreza com “grande atenção”, sob pena de se comprometer o futuro e o modelo de desenvolvimento necessário ao país.

A sociedade portuguesa, considerou, é “demasiado permissiva” perante a pobreza.

“No senso comum, ainda é muito comum mesmo a ideia de que uma pessoa só é pobre, pobre, quando já não tem meios sequer para se alimentar”, lamentou.

“A atitude da sociedade perante a pobreza não pode ser esta”, acrescentou o académico, reclamando uma evolução no comportamento dos portugueses, por forma a alcançar um combate mais eficaz neste setor.

“A sociedade portuguesa condescende facilmente com situações de sobrevivência das pessoas, em função meramente da caridade alheia e quando um indivíduo está dependente da caridade alheia a sua dignidade foi amputada”, sublinhou Carvalho da Silva em entrevista à Lusa, realizada no seu escritório em Lisboa, onde está a desenvolver um Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social (COLABOR).

Os dois primeiros casos de pessoas infetadas em Portugal com o novo coronavírus foram anunciados em 02 de março de 2020, enquanto a primeira morte foi comunicada ao país em 16 de março. No dia 19, entrou em vigor o primeiro período de estado de emergência, que previa o confinamento obrigatório, restrições à circulação em Portugal continental e suspensão de atividade em diversas áreas.

A suspensão ou restrição de atividade em variados setores, como restauração, comércio, turismo e cultura, entre outros, elevou o número de falências em Portugal, agravou situações de precariedade laboral e provocou aumento do desemprego.

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