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Angola pode voltar aos mercados se emissão do Gana correr bem

 

“Uma procura forte pelos títulos do Gana iria claramente demonstrar a estabilidade da região para continuar a ter acesso aos mercados financeiros internacionais e evitar a incerteza”, comentou o economista-chefe da consultora financeira Gemcorp, Simon Quijano-Evans.

“A emissão da dívida do Gana é ansiosamente aguardada e será importante para o país, mas também para a região, abrindo a porta para mais países emissores, como Angola ou o Quénia”, acrescentou o economista.

A medida está a ser encarada como um teste, já que surge depois de um conjunto de países terem aderido ao Enquadramento Comum para o tratamento da dívida para além da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI), implicando perdas para os credores privados, e no seguimento da reabertura das economias africanas depois das medidas mais duras de confinamento.

Uma emissão bem sucedida seria um sinal para outros países de que os mercados ainda estão disponíveis para estes países que enfrentaram nos últimos meses um aumento da dívida pública e uma redução das receitas, atirando-os para uma significativa crise económica e financeira.

De acordo com a analista Samantha Singh, do banco sul-africano Absa, “o potencial para o Gana angariar o financiamento máxima iria demonstrar que os emissores do continente estão numa posição favorável para continuar a pagar pelo menos parte das suas necessidades financeiras através da emissão de títulos de dívida soberana”.

O dilema, concluiu, é que “muitos países precisam de alívio da dívida mas também precisam de novos financiamentos”.

Este ano, Benim, Egito e Costa do Marfim já emitiram dívida soberana, e a analista espera que também a Nigéria vá aos mercados a seguir ao Gana.

O Gana planeia angariar 5 mil milhões de dólares (4,2 mil milhões de euros) e ofereceu uma opção de recompra de 250 milhões de dólares (210 milhões de euros) para os seus títulos já emitidos.

A dívida pública média da África subsaariana deverá aumentar este ano para 75% do PIB, de acordo com as previsões da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), que estima que os países desta região recebam cerca de 30 mil milhões de dólares, o equivalente a 25,5 mil milhões de euros, por parte da nova alocação de Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI.

Na semana passada, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) defendeu a criação de um “mecanismo de estabilidade financeira” que permitisse “mutualizar os nossos fundos e garantir que evitamos os efeitos de contágio que surgem quando há pandemias globais ou qualquer outro choque”.

Para o BAD, que prevê um crescimento de 3,2% para este ano, depois de uma recessão de 2,1% em 2020 devido aos efeitos da pandemia, “a dívida coletiva de África está agora nos 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do continente”, sendo que “a parte da dívida externa nas mãos de credores comerciais mais do que duplicou nas últimas duas décadas, passando de 17% em 2000 para 40% no final de 2019”.

No relatório divulgado no princípio do mês, o BAD estimou que os governos africanos precisam de mais 154 mil milhões de dólares (129 mil milhões de euros) entre 2020 e 2021 para responder aos desafios causados pela pandemia e pelo agravamento da posição orçamental daí decorrente, nomeadamente com o aumento dos custos de servir a dívida.

Na semana passada, durante a reunião anual da Comissão Económica das Nações Unidas para África, os peritos estimaram em 3 a 4 mil milhões de dólares, ou seja, 2,5 a 3,4 mil milhões de euros o valor necessário para atingir os 60% de vacinação no continente, com a secretária executiva da UNECA a colocar as necessidades adicionais de financiamento destes países em 100 mil milhões de dólares (850 mil milhões de euros).