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Paris convoca embaixador chinês após críticas a personalidades francesas

 

“A pedido do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, convocámos hoje de manhã o embaixador, Lu Shaye, para o notificar de todas as queixas que tínhamos contra ele”, indicou uma fonte oficial de Quai d’Orsay (sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês).

Um dos visados dos comentários da embaixada da China em Paris é Antoine Bondaz, investigador da Fundação para a Investigação Estratégica (FRS).

“Pequeno vadio”, “hiena louca” ou “‘troll’ ideológico” foram as afirmações proferidas nos últimos dias pela representação diplomática chinesa na capital francesa contra Antoine Bondaz, a quem atribui posições “anti-chinesas”.

O embaixador Lu Shaye também se declarou “firmemente contra” uma visita planeada de parlamentares franceses a Taiwan.

Pequim considera Taiwan parte do seu território, denunciando todas as visitas de representantes ocidentais à ilha e ameaçando a reunificação pela força.

Segundo a fonte citada pela agência France-Presse (AFP), o diretor para a Ásia no Quai d’Orsay, Bertrand Lortholary, transmitiu especificamente a Lu Shaye que os “métodos da embaixada” e “o tom da comunicação pública” do representante diplomático eram “completamente inaceitáveis e ultrapassavam todos os limites comummente aceites para uma embaixada, onde quer que ela se encontre”.

“O insulto, a injúria, a ameaça contra parlamentares, investigadores, jornalistas, colocam problemas fundamentais que surgem de métodos de intimidação”, declarou a diplomacia francesa.

A mesma fonte prosseguiu: “Ao atacar os representantes eleitos da República, o embaixador desrespeitou pessoalmente o princípio da separação fundamental de poderes e é convidado a observá-lo da forma mais estrita a partir de agora”.

Ao proceder desta forma, o embaixador Lu Shaye “constitui um obstáculo à vontade política expressa pelos chefes de Estado dos dois países” de desenvolver a relação bilateral, o que constitui um “problema extremamente grave”, sublinhou a mesma fonte.

França também comunicou ao embaixador a desaprovação francesa em relação à decisão de Pequim de sancionar dez políticos e académicos europeus, incluindo um eurodeputado francês, em retaliação às medidas sancionatórias aplicadas pela União Europeia (UE) no âmbito da repressão imposta pela China contra a minoria muçulmana uigur.

O embaixador da China em Paris já tinha sido convocado a comparecer na segunda-feira no Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, mas alegou na altura problemas “de agenda”.

Através da rede social Twitter, o representante diplomático de Pequim confirmou a sua deslocação hoje ao ministério para discutir “as sanções impostas pela UE” em relação aos uigures e “questões ligadas a Taiwan”.

Chegado a Quai d’Orsay, Lu Shaye foi informado de que “tais questões não se enquadravam no âmbito da convocatória a que estava sujeito”, indicou a mesma fonte da diplomacia francesa.

O embaixador chinês ficou “visivelmente chocado com a natureza extremamente direta das observações feitas”, concluiu a mesma fonte.

Lu Shaye já tinha sido convocado pela diplomacia francesa em abril de 2020, no início da pandemia da doença covid-19, após a publicação de um artigo na página ‘online’ da embaixada da China em que criticava a gestão da crise sanitária na Europa.