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Direitos Humanos julga queixa de jornalista colombiana torturada

 

Bedoya testemunhou no início da audiência de três dias perante o TIDH, que julga a sua queixa contra o Estado, em resultado do sequestro, violação e tortura de que foi vítima em 2000, quando esperava a confirmação de uma entrevista nas proximidades da prisão Modelo, em Bogotá.

A jornalista relatou que na altura estava a investigar, para o diário El Espectador, episódios de violência, tráfico de armas e venda de raptados entre paramilitares, a guerrilha e os traficantes de droga, com cumplicidade de polícias e militares com os presos na cadeia, e que, em 25 de maio de 2000, tinha um encontro para entrevistar um chefe paramilitar nas instalações prisionais.

Bedoya recordou que enquanto esperava para entrar na cadeia foi raptada, tendo sido violada e torturada de imediato e ouvido que era uma “lição” pelas suas reportagens.

A jornalista adiantou que antes tinha recebido ameaças e que, em novembro de 1999, o Estado lhe negou um esquema de proteção especial que tinha solicitado, por carta, em agosto desse ano.

“Reparar a dor que enfrenta uma mulher depois da violência sexual é quase impossível. A violência sexual é algo que nos quebra em mil pedaços. Mas algo que seria reparador era fechar o lugar onde tudo começou. Encerrar a prisão Modelo, que é um símbolo de impunidade”, afirmou Bedoya.

Defendeu também que a prisão fosse convertida em um centro de memória histórica, garantindo que lá foram cometidas violações de direitos humanos de tido o tipo.

Bedoya pediu também ao tribunal que na Colômbia seja reconhecido o crime de violência sexual contra as mulheres como arma de guerra e que haja uma ênfase especial na proteção de jornalistas com enfoque no género.

“A nós continuam a intimidar-nos e estigmatizar pela nossa condição de mulher. Existe um registo particular de casos de mulheres que enfrentaram violência sexual em todas as suas formas”, disse.

Bedoya citou estatísticas de um inquérito realizado pela Universidade dos Andes que revela que, na Colômbia, seis em cada 10 mulheres jornalistas sofreram assédio, perseguição e estigmatização, e que oito em casa 10 decidem autocensurar-se ou abandonar as suas fontes para não serem vítimas de violência.

A jornalista assegurou que no conflito armado colombiano também há vítimas que têm ficado sem visibilidade, como as meninas e mulheres que foram escravizadas, violadas e obrigadas a abortar.

Sobre o seu caso, afirmou que se mantém sem avanços significativos na investigação da Procuradoria, apesar de ter entregado provas sobre o mandante, um ex-general do Exército.

Bedoya asseverou que ao longo dos anos tem continuado a receber ameaças e que já por 12 vezes se deslocou à justiça para relatar os factos.

Durante a audiência, o representante estatal, Camilo Gómez, acusou os juízes do TIDH de “falta de objetividade” e de “preconceito” contra o Estado, pelas perguntas feitas à jornalista, acrescentando que ia apresentar um pedido de recusa dos juízes e a saída da representação estatal da audiência.

Durante as perguntas, os juízes expressaram palavras de elogio e solidariedade para com a Bedoya, pelos atos de violência que sofreu e por continuar a exercer a profissão de jornalista.

Gómez afirmou que o Estado reconhece a luta e o trabalho da jornalista e que “nenhuma mulher deveria sofrer um ataque deste tipo nem nenhum jornalista ser ameaçado pelo seu trabalho”.

Contudo, realçou que “a obrigação dos juízes é serem objetivos e imparciais” e “não fazerem julgamentos antecipados de um Estado que se apresenta com humildade perante o Tribunal e que espera imparcialidade”.

A presidente do TIDH, Elizabeth Odio, decidiu continuar com a audiência, com o testemunho do jornalista Jorge Cardona.

Para terça-feira está previsto que os juízes ouçam um perito proposto pela representação da vítima e outro avançado pelo Estado, se bem que se admita que este não apareça, depois da retirada da representação estatal.

O julgamento deve terminar na quarta-feira, com as alegações finais das partes.

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