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Garimpeiros arriscam a vida para sustentar famílias em Moçambique

 

Despenteado, agora é ele o pequeno garimpeiro: guia-nos descalço por um caminho estreito e escorregadio, pelo meio da pouca vegetação que resta no que outrora foram hortas, agora esventradas pelo garimpo artesanal e onde tudo é da cor da argila, tanto a terra como os homens que a remexem.

Nelito mostra os túneis e trilhos por onde se começou a aventurar, ainda como brincadeira, desde os 05 anos de idade, num ofício que rapidamente se tornou sério.

“O meu tio convidou-me. Disse ‘vamos trabalhar’. Então eu ia para ajudar e ganhar dinheiro”, conta à Lusa a criança que, como outros garimpeiros adultos, arrisca a vida por um El Dorado moçambicano em que mal se conhece o valor do minério.

“Há muito tempo ficava com medo” de entrar para os túneis, porque não conseguia respirar sem auxílio de plásticos, sacos que enchia antes de entrar.

Já viu vários acidentes mortais, o mais recente há poucos dias, mas diz que cultivou coragem e continua no ofício, mesmo quando as águas do rio Revue, ali ao lado, têm mais força – como agora acontece, em plena estação das chuvas.

Bélito Paulino, 29 anos, é outro garimpeiro de Fenda e como quase todos diz que “esta é a forma de sustentar a família”. 

“Não tenho mais nada para fazer, nem machamba [horta]”, por isso sujeita-se a testemunhar “muitos sofrimentos”, acidentes de que perdeu a conta, esperando que nunca nenhum o atinja.

Segue uma regra simples: “Nunca escavar num sítio que já tem covas. Abrir noutro sítio, ali não”, especialmente durante a época das chuvas.

Avançando 25 quilómetros a norte de Fenda, o cenário repete-se em Mharidza, aqui com escavações mais fundas e mais gente no subsolo, em busca de pequenos grãos dourados.

Nesta zona, os túneis chegam a ter 60 metros de comprimento e são uma ameaça para a segurança de uma concessão mineira legalizada vizinha, atribuída a uma empresa, ao lado da qual os buracos ilegais não param de crescer.

As firmas do setor têm apontado o garimpo como um dos riscos para as suas infraestruturas, mas para os homens da cor da argila são as empresas que estão a invadir a terra da sua “arte”, diz Trama Daniel, garimpeiro há sete anos. 

Em janeiro, o desabamento de escavações ilegais para extração de rubis matou duas pessoas no norte de Moçambique, na área de concessão da Montepuez Ruby Mining (MRM), em Cabo Delgado. 

A mineradora tem alertado para os perigos do garimpo descontrolado e refere que fez pelo menos 25 vítimas mortais em 2020 na sua área de concessão, na maioria homens jovens de outros países ou de aldeias distantes.

O Estado moçambicano tem procurado colocar ordem no setor através de cooperativas e algumas iniciativas mostram que o cenário pode ser diferente.

Oito quilómetros a norte de Fenda, em Munhena, os garimpeiros associaram-se há 21 anos e hoje são quase 200 a operar numa área de 200 hectares.

“Estamos organizados, pagamos impostos, nunca ninguém nos vai perseguir”, disse à Lusa, Noé Bernardo, o secretário da associação.

“Como agora estamos a trabalhar em grupos de 10 pessoas, por semana estamos a fazer 20 a 25 gramas [por grupo], mas quando estávamos bem organizados, com a maquinaria, tirávamos 800 gramas por semana”, destalha.

A maquinaria pertencia a um sócio sul-africano, entre 2006 e 2012, mas que se retirou, queixando-se das taxas que tinha de pagar, explicou.

Não é comum ver mulheres no garimpo, mas ali estão algumas, de marreta na mão, a partir pedra onde encontram ouro.

Constância Caruru, 28 anos, largou o comércio de refrigerantes e legumes para se estrear no novo labor e pouco importa se é mais duro: é o seu único ‘ganha-pão’.

O preço mundial do ouro subiu até 2011, depois recuou, mantendo-se com altos e baixos até encetar nova subida a partir de 2019 e atingir máximos durante a pandemia de covid-19, em 2020, superando os 2.000 dólares por onça (cada onça equivale a 31 gramas) – cerca de 10 vezes mais do que valia no início do século.

Junto dos garimpeiros, o valor mede-se de outra forma: antes de enviarem dinheiro para as famílias, trocam as pequenas partículas por farinha, peixe seco salgado ou “boss”, uma bebida espirituosa de baixo custo.

Cinco copos de farinha estão a ‘um ponto’, que corresponde a 300 meticais, sendo que dez pontos equivalem a um grama de ouro, medido em pequenas balanças eletrónicas a pilhas no mercado de Mharidza.

A par de uma intensa atividade de garimpo, que envolve crianças, o distrito de Manica, fértil em recursos minerais – há ouro e pedras preciosas raras como turmalina rosa e verde -, enfrenta uma forte atividade de extração de ouro e bauxite por empresas nacionais e estrangeiras.

Na cidade de Manica há um mercado do ouro legal, do conhecimento das autoridades, mas há garimpeiros que preferem fugir ao radar dos fiscais, vendem-no a estrangeiros que por eles esperam em apartamentos alugados onde o negócio é feito quase que em surdina.

Seja de que maneira for, no fim do dia, só lhes sobra uma parte do que a muito custo conseguem arrancar da terra esventrada – quando o conseguem – porque o objetivo é “apoiar a família”, a expressão que serve de denominador comum a todos os relatos de garimpeiros.

 

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