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UMA nasceu para o digital e o presencial mas não é "filha da pandemia"

Joana Magalhães, Maria Inês Marques e Mafalda Lencastre criaram esta “plataforma multidisciplinar e indisciplinada” que disponibiliza conteúdos de várias áreas artísticas, com um foco em criar um projeto colaborativo que envolva públicos e criadores.

O primeiro ano, explica à Lusa Mafalda Lencastre, “será dedicado aos buracos negros, de forma metafórica”, olhando para 2020 como um desses, uma ideia que guia a programação e está plasmada no ‘site’.

Aí, há ‘open calls’, ou seja, chamadas para trabalhos, ensaios visuais, ‘performances’, instalações e outras criações, que envolvem o trio fundador e outros artistas que se associaram ao projeto.

Várias das apresentações surgirão em breve no ‘site’ da UMA, como “Candy”, “livremente inspirado” no dramaturgo Tennessee Williams, e criado por Diego Bagagal e Maria Inês Marques, com vídeo de Mafalda Marques.

Na aposta no áudio, Marques apresentará ainda “Cura”, um ‘podcast‘ “sobre uma narrativa que atravessa diferentes gerações familiares e sobre a memória encarnada na voz”, seguindo Gracinda, uma mulher que cuidou da sua comunidade em Lavadores, a sul do Porto, no século XX.

Se o projeto não foi pensado para ser unicamente ‘online’, nem tem como objetivo “substituir o presencial pelo virtual”, “2020 acentuou essa coexistência”.

“O virtual, além de uma ferramenta muito potente de divulgação, também produz realidade. Não são coisas separadas. Numa ‘performance’ ao vivo, vamos lutar para a apresentar ao vivo. Os conteúdos que estão no ‘site’, achamos, podem ser partilhados só virtualmente”, explica a atriz e criadora.

Maria Inês Marques, por seu lado, lembra que embora o trio fundador se tenha juntado em 2020, ano em que concretizaram o projeto, não são “filhas da pandemia“, uma frase de Joana Magalhães.

“O digital, ou a plasticidade e potencialidade para interação e colaboração e transformação dos projetos, já andava nas nossas cabeças, e na forma de querer trabalhar, bem antes deste fenómeno de remediação digital”, revela.

O objetivo para a frente é “manter estes dois braços de atividade bastante ativos“, e Mafalda revela que a “proliferação inegável de projetos áudio” na criação artística, entre conferências, conversas, ‘audiopeças‘ ou ‘playlists‘, é algo a que querem “dar resposta”.

Num momento em que “a sobrevalorização da imagem rebentou pelas costuras”, esta resposta à “crise da representação e da visibilidade” tem na digitalização uma resposta.

“Há artistas a responder aos ‘avatares‘, ao áudio, e a virtualidade tem esse potencial. Porque estamos a falar de temas muito fortes na atualidade, de identidade, de imagem, de corpo, que estão questionados nesta proliferação de áudio e virtual”, comenta Mafalda Lencastre sobre um “desaparecimento que é estratégico”.

A própria plataforma é “dramatúrgica“, com uma seleção cuidada do que é apresentado e onde, para refletir um pensamento por detrás das propostas que criam e que acolhem.

“Acho que o digital, ou pelo menos a coexistência entre a ‘performance’ ao vivo e a ‘performance’ mediada, veio para ficar. Até porque o digital traz plasticidade, e facilidade ao lado colaborativo e interativo. Isso é muito importante. A experiência do espectador como atuante numa narrativa, no que quer que seja. O digital traz muito essa possibilidade”, resume Maria Inês Marques.

O projeto, que se desdobrará igualmente para o espaço físico assim que for permitido, vai continuar a “candidatar-se a apoios” e a colocar novos conteúdos e oficinas, em várias disciplinas e com artistas e colaboradores também do campo académico, de Portugal e de outros países, mas também novas chamadas de trabalhos, sob o tema do “Buraco 2.0”, um “olhar retrospetivo” sobre “o ano que não existiu”.