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CIA acreditava que URSS ia aceitar bem resultado mau do PCP em 1975

“As reportagens e comentários soviéticos sobre as eleições portuguesas até agora têm sido discretos sobre o fraco desempenho dos comunistas, levantando a possibilidade de Moscovo não estar totalmente descontente com o resultado das eleições”, lê-se no relatório diário da CIA “The President’s Daily Briefing”, o relatório diário para o Presidente, com a data de 30 de abril de 1975, e em que os resultados das eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de abril, que deram a vitória ao PS, de Mário Soares, eram tratados ao pormenor.

São dezenas de páginas em que a CIA, a partir de informações cuja origem ainda hoje está apagada, vai fazendo a avaliação da situação no país, muito centrada no que faziam e diziam o PCP e o seu líder histórico, Álvaro Cunhal, ou o que diziam e faziam os soviéticos quanto a Lisboa, consultadas pela Lusa no maior arquivo histórico digital dos Estados Unidos, o Digital National Security Archives, em Washington, da ProQuest.

Além da hipótese de a URSS aceitar bem os resultados das eleições, os analistas da CIA punham ainda outro cenário: “Os soviéticos podem considerar que a relativa falta de apoio eleitoral do Partido Comunista Português (PCP) o tornará mais permeável à influência soviética.”

Há 46 anos, EUA e a URSS viviam em guerra fria e, subitamente, em 25 de Abril de 1974, um movimento de jovens oficiais derrubou, de forma pacífica, a mais velha ditadura da Europa, em Portugal, golpe que apanhou de surpresa os norte-americanos e soviéticos.

Num mundo dividido em dois, a guerra fria entre os EUA e a URSS estendia-se também a Portugal, dividindo-se os apoios políticos e financeiros de Washington entre os moderados, que incluía PS e forças de direita, e os de Moscovo ao PCP. Uns e outros mais ou menos discretos, conforme o ritmo e a “temperatura” da Revolução dos Cravos.

As duas potências mediam os passos em Portugal, de uma e de outra, como torna evidente a leitura dos relatórios que todas as manhãs eram levados, em mão, um alto funcionário da CIA, o “briefer”, para Gerald Ford ler na Casa Branca ou onde estivesse.

Um dos receios em Washington era o apoio, político e financeiro, de Moscovo ao PCP e a Cunhal. E, em última análise, o surgimento de um regime comunista num país europeu e membro da Aliança Atlântica, que se opunha ao Pacto de Varsóvia.

No final de 1974, nove meses após o 25 de Abril, depois da demissão de António de Spínola de Presidente, a revolução já dava sinais de viragem à esquerda, e a “secreta” elaborou sobre o assunto, no PBD de dia 06 dezembro.

E nestes termos, a CIA considerava que os soviéticos “aparentemente” decidiram “moderar o apoio público aos comunistas portugueses”.

Passados mais de 40 anos sobre este relatório, parte dele continua rasurado e confidencial, e recordava a moderação de Cunhal numa entrevista à Kommunist, a revista teórica do partido soviético.

O líder do PCP, que viveram anos de exílio em países de Leste e na URSS, dizia que pretendia agir “devagar” relativamente a mudanças na relação de Portugal com a NATO ou a opor-se à utilização da Base das Lajes, nos Açores, pelos Estados Unidos.

Os soviéticos, lê-se no relatório, “sentem-se dependentes da leitura de Cunhal da situação em Portugal devido ao fraco conhecimento dos desenvolvimentos” no país durante este período revolucionário.