Início Mundo Suspensão de exportações de vacinas para fora da UE. França apoia Itália

Suspensão de exportações de vacinas para fora da UE. França apoia Itália

A UE defendeu a decisão das autoridades italianas de suspender um envio de doses destinadas à Austrália, como parte de uma rivalidade de longa data com a fabricante de medicamentos AstraZeneca e a Alemanha.

“Se continuam a existir estes atrasos (de fornecimento de vacinas por parte das farmacêuticas) é justo que os países da UE bloqueiem a exportação para países que não são vulneráveis”, defendeu hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Luigi Di Maio, após reunir-se com o homólogo francês, Jean-Yves Le Drian.

A UE disse que a decisão não visa especificamente a Austrália, e que foi tomada para garantir que a AstraZeneca entregue o número de doses que se comprometeu a enviar aos Estados-membros.

“O facto é que a União Europeia é um grande exportador de doses de vacinas”, disse o porta-voz da Comissão Europeia, Eric Mamer.

Perante a escassez de doses durante os estágios iniciais das campanhas de vacinação, a UE anunciou no início de janeiro um mecanismo de controlo de exportação, interrompendo as entregas dos fármacos contra a covid-19 para fora do bloco, numa tentativa de forçar as empresas a cumprir as suas obrigações contratuais com a UE.

Desde que o mecanismo entrou em vigor em 30 de janeiro, a Comissão Europeia disse que foram aprovadas 174 autorizações de exportação de vacinas para 30 países diferentes fora da União.

A UE está particularmente descontente com a AstraZeneca porque a empresa está a entregar muito menos doses ao bloco do que as que se tinha comprometido entregar.

Do pedido inicial de 80 milhões de doses para os 27 no primeiro trimestre deste ano, a empresa vai ter dificuldades para entregar metade dessa quantidade.

“Acreditamos que esta vacina é um elemento importante do nosso portefólio e, portanto, esperamos a entrega das doses acordadas. Estamos a trabalhar com as empresas para garantir que entreguem as doses que estão previstas para a UE. Para todas as empresas que estão a fazer isso, não há problemas de exportação”, vincou Mamer.

Como o fornecimento dos fármacos continua escasso nos 27 com problemas de produção e distribuição, os países europeus mostraram recentemente alguns sinais de divisão.

Vários países expressaram a sua frustração com a lenta distribuição de doses e estão a procurar soluções fora do processo de aquisição conjunta estabelecido pela UE.

Porém, a decisão de Itália de bloquear o envio de mais de 250.000 doses da AstraZeneca para a Austrália, cerrou fileiras entre os Estados-membros.

O ministro da Saúde francês, Olivier Veran, admitiu “entender” a decisão do governo italiano e disse que a França “poderá fazer o mesmo”.

“Acreditem em mim, quanto mais doses tiver, mais feliz sou como ministro da Saúde”, declarou Veran numa entrevista ao canal francês BFMTV, acrescentando que a França e os seus parceiros europeus estão determinados a cumprir os contratos com os fabricantes.

O governo alemão justificou também a restrição à exportação, destacando o papel da UE da investigação, desenvolvimento e produção de vacinas.

“Em geral, as exportações de vacinas não são interrompidas enquanto os contratos com a UE são cumpridos. Muitas vacinas vão da UE para países terceiros, enquanto quase nada é exportado dos Estados Unidos e Reino Unido”, reiterou o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert.

Ainda antes, o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, disse que, em termos gerais, era correto que a UE assegurasse que os fabricantes de vacinas respeitassem as entregas prometidas, mas que era também importante uma coordenação entre o bloco europeu sobre restrições às exportações.

A UE acreditava estar preparada de maneira sólida para o lançamento de vacinas para os seus 450 milhões de habitantes, com acordos assinados com seis farmacêuticas diferentes.

No total, encomendou até 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca e fechou acordos com outras empresas para mais de dois mil milhões de doses.

Porém, apenas 33 milhões de doses foram administradas até agora, e apenas 11 milhões de europeus estão totalmente imunizados.

Apesar das dificuldades atuais, a meta da UE continua a ser vacinar 70% da população adulta até ao final do verão.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.570.291 mortos no mundo, resultantes de mais de 115,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.486 pessoas dos 808.405 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.