Início Mundo Stoltenberg: UE "não consegue defender a Europa sozinha"

Stoltenberg: UE "não consegue defender a Europa sozinha"

“A união da Europa não pode substituir a união transatlântica e a UE não consegue defender a Europa sozinha. (…) Não é apenas uma questão de dinheiro, mas também de geografia: a Islândia e a Noruega, no norte, são portas para o Ártico, a Turquia, no sul, tem fronteiras com a Síria e com o Iraque e, a oeste, os Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido ligam os dois lados do Atlântico. Todos estes países são críticos para a defesa da Europa”, disse Stoltenberg durante uma intervenção na Conferência Interparlamentar sobre a Política Externa e de Segurança Comum e a Política Comum de Segurança e Defesa, organizada pela Assembleia da República de Portugal no âmbito da presidência do Conselho da UE.

Frisando que “mais de 90% dos habitantes” da UE vivem num Estado-membro da NATO mas que a UE só fornece “20% dos gastos em defesa” da Aliança, Stoltenberg sublinhou que o bloco europeu “não tem de maneira nenhuma” os recursos de que precisa para defender o seu território.

“O mais importante é que, se começarmos a enfraquecer o laço e a dar a perceção de que podemos defender a Europa sem a América do Norte e sem os Aliados que não fazem parte da UE, então não estaremos apenas a enfraquecer o laço transatlântico e a NATO, mas também a dividir a Europa. Por isso, não seria bom para a Europa, não seria bom para a NATO, e é a razão pela qual acredito numa solidariedade estratégica, em que trabalhamos juntos”, apontou.

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) relembrou assim que “durante séculos” os conflitos foram “um companheiro da Europa” e que “uma das razões” pelas quais se criou a Aliança foi para “evitar que novas guerras ocorressem” no continente.

“Só uma NATO forte pode manter as cerca de mil milhões de pessoas [que a Aliança abrange] seguras, num mundo mais perigoso”, apontou.

Stoltenberg elencou assim um conjunto de ameaças que Aliança irá enfrentar no mundo “de hoje e de amanhã”, e que vão da ascensão da China, ao “comportamento desestabilizador da Rússia”, passando pelas “formas brutas de terrorismo” na vizinhança da NATO e por “ciberataques sofisticados”, para ilustrar que são “ameaças demasiado grandes” para que os Aliados consigam lidar com elas sozinhos.

Nesse âmbito, abordou o processo de reflexão NATO 2030, que está atualmente em curso e que prevê projetar a Aliança do futuro, e referiu que este servirá para aproveitar a “oportunidade única” criada pela entrada em funções da administração de Joe Biden e “abrir um novo capítulo nas relações transatlânticas“.

Entre as prioridades enumeradas pelo secretário-geral no quadro desse processo, Stoltenberg realçou a importância da cooperação entre a Europa e a América do Norte, destacando a área da resiliência como tendo “um potencial enorme” para os dois parceiros.

“A resiliência das nossas sociedades civis tem uma grande importância para a nossa defesa militar e temos de nos assegurar que temos infraestruturas, telecomunicações, estradas, aeroportos e cabos submarinos funcionais e seguros, em tempos de paz, mas também de crises e conflitos”, precisou.

Stoltenberg não rejeitou, ainda assim, a ideia de “autonomia estratégica” da UE, referindo que “saúda” os esforços do bloco na área da defesa e no “envolvimento de aliados [que não são Estados-membros da UE] no Fundo de Defesa Europeu e na Cooperação Estruturada Permanente (PESCO, na sigla em inglês)”.

“Também saúdo a decisão recente dos Estados Unidos em juntar-se ao projeto de mobilidade militar, que é uma bandeira da cooperação NATO-UE, e que permite que equipamento ou tropas dos Estados Unidos ou de outros Aliados da NATO possam movimentar-se rapidamente através da Europa”, sublinhou.

Numa intervenção virtual perante deputados do Parlamento Europeu (PE) e dos diferentes parlamentos nacionais dos Estados-membros da UE, o secretário-geral pediu-lhes ainda que o ajudem a “fortalecer os laços entre a Europa e a América do Norte”.

“Fortalecer as relações transatlânticas e trabalhar de mãos dadas é a coisa certa a fazer e agora é a altura certa para o fazer”, concluiu.

A Conferência Interparlamentar sobre a Política Externa e de Segurança Comum e a Política Comum de Segurança e Defesa começou em 2012 e tem lugar semestralmente, tendo como objetivo reunir eurodeputados do Parlamento Europeu (PE) e deputados das Comissões dos Negócios Estrangeiros, Assuntos Europeus e Defesa dos parlamentos nacionais dos Estados-membros da UE.

Nesta edição, organizada pela Assembleia da República no âmbito da dimensão parlamentar da presidência portuguesa do Conselho da UE, os temas abordados serão a cooperação entre a UE e a NATO, a Bússola Estratégica e a estratégia da UE para o continente africano.

Além da participação do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, a conferência contará também com a intervenção do ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, e do Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell.