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Myanmar. Três manifestantes feridos por balas reais em protestos

“Cerca de 20 pessoas foram feridas” pelas forças de segurança, que tentaram dispersar uma manifestação na cidade de Kale (noroeste do país), disse um socorrista.

Três dessas pessoas, “atingidas por balas reais, terão de ser operadas com urgência e estão em estado crítico”, acrescentou um médico do hospital para onde os feridos foram transportados.

Os manifestantes voltaram hoje às ruas para protestar contra a tomada do poder pelos militares, no dia em que os ministros dos Negócios Estrangeiros de 10 países do sudeste asiático se reúnem para discutir a crise política.

A reunião especial da Associação das Nações do Sudeste Asiático, realizada por videoconferência por causa da pandemia de covid-19, visa discutir o agravamento da violência em Myanmar, devendo os resultados da reunião ser anunciados hoje à noite.

De acordo com as Nações Unidas, pelo menos 18 pessoas de várias cidades foram mortas no domingo, quando as forças de segurança abriram fogo para dispersar as multidões que se manifestavam.

As autoridades também detiveram mais de 1.000 pessoas no fim de semana, de acordo com a Associação independente de Assistência a Prisioneiros Políticos.

Entre os detidos estão pelo menos sete jornalistas, somando-se já mais de 20 jornalistas presos desde a tomada do poder pelos militares. Alguns jornalistas foram alvejados e vários foram detidos enquanto estavam a cobrir as manifestações.

A polícia e os militares de Myanmar têm aumentado o uso da força nos últimos dias na tentativa de conter os protestos contra a junta militar – que realizou um golpe de Estado no dia 1 de fevereiro -, recorrendo a gás lacrimogéneo, balas de borracha, canhões de água e, cada vez mais, armas com munições reais.

A repressão do fim de semana foi condenada internacionalmente, tendo o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificado o uso de força letal contra os manifestantes pacíficos e as prisões arbitrárias como “atos inaceitáveis”, disse o seu porta-voz.

Os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros países emitiram declarações de preocupação semelhantes, mas, até agora, não há qualquer sinal de que a junta militar pretenda recuar no uso da força para esmagar os protestos.

Por seu lado, os manifestantes, que têm usado técnicas de protesto não violentas, estão a começar a resistir com mais vigor.

Nos últimos dias, cada vez mais pessoas têm aparecido nas manifestações com escudos caseiros e capacetes de construção civil e os vídeos mostram um número maior de manifestantes a lançar objetos contra a polícia.

A enviada especial da ONU a Myanmar, Christine Schraner Burgener, descreveu a situação como “muito perigosa” e afirmou acreditar que o exército está à espera que os manifestantes peguem em armas para se defenderem, “justificando” a adoção de uma reação ainda mais radical.

“Imploro ao povo de Myanmar que não caia nesta armadilha”, pediu, numa entrevista transmitida pela estação televisiva na segunda-feira.

Os manifestantes e os que os apoiam já pediram ajuda internacional, mas há poucas perspetivas de uma grande intervenção.

O especialista independente da ONU em direitos humanos em Myanmar, Tom Andrews, propôs, na segunda-feira, que os países instituam um embargo global à venda de armas para Myanmar e imponham “sanções duras, direcionadas e coordenadas” contra os responsáveis pelo golpe, a repressão e outros abusos de direitos.

No entanto, qualquer tipo de ação coordenada pelas Nações Unidas será difícil de concretizar, já que é muito provável que dois dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a China e a Rússia, a vetem.

Ainda assim, alguns países impuseram ou estão a considerar impor sanções por mote próprio.

Em Washington, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, divulgou um comunicado no qual refere que os Estados Unidos estão “alarmados” com a violência e se solidarizam com o povo de Myanmar.

O golpe militar, no dia 01 de fevereiro, atingiu a frágil democracia de Myanmar depois da vitória do partido de Aung Sang Suu Kyi nas eleições de novembro de 2020.

Os militares tomaram o poder alegando irregularidades durante o processo eleitoral do ano passado, apesar de as autoridades eleitorais terem negado a existência de fraudes.

Desde então, milhares de pessoas têm-se manifestado contra o golpe militar, sobretudo na capital económica, Rangum, e em Mandalay, a segunda maior cidade do país, e pelo menos seis pessoas já morreram nos protestos.

Nas últimas três semanas, os generais birmaneses têm intensificado o recurso à força para enfraquecer a mobilização a favor do regresso do Governo civil, com milhares de pessoas a descerem às ruas em desfiles diários.

Desde a sua detenção na manhã de 01 de fevereiro que Aung San Suu Kyi não é vista em público.

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