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"Deserções" reforçam expetativas de fim da violência em Moçambique

“Há uma esperança mais forte [em relação ao fim da violência armada] com as deserções que estão a acontecer no topo da hierarquia da Junta Militar”, disse Egna Sidumo, pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), uma entidade moçambicana de pesquisa independente.

Egna Sidumo falava numa conferência sobre a “Abertura do ano Político 2021: Balanço do Ano Político 2020 e perspetivas para 2021”, promovida pelo Instituto para Democracia Multipartidária (IMD, na sigla em inglês), organização da sociedade civil moçambicana.

A pesquisadora, que é também docente universitária, apontou em concreto o facto de André Matsangaíssa Júnior ter sido recebido pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, após deixar a Junta Militar, como um passo importante para o sucesso do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) da guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e da adesão dos membros da Junta Militar à operação.

Egna Sidumo defendeu o envolvimento de mais atores sociais e políticos na implementação do Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, assinado entre o Governo moçambicano e a Renamo, em 06 de agosto de 2019, para o bom desfecho das etapas preconizadas no entendimento.

Dércio Alfazema, membro do IMD e analista político, também assinalou o impacto do abandono da Junta Militar por André Matsangaíssa Júnior no fim da violência militar no centro do país.

“Estes abandonos criam-nos a esperança de que o DDR vai continuar num percurso satisfatório, porque a Junta Militar está cada vez mais fragilizada”, enfatizou Alfazema.

André Matsangaíssa Júnior era um “estratega-chave” da Junta Militar da Renamo e a sua saída do movimento vai afetar as ações do grupo, acrescentou.

Dércio Alfazema observou, contudo, que a implementação do Acordo de Paz e Reconciliação Nacional e do DDR não deve ser monopólio do Governo e da Renamo, porque a paz é um bem coletivo.

“O processo deve ser monitorizado pela sociedade civil e deve ser implementado com máxima transparência”, declarou.

André Matsangaíssa Júnior é sobrinho de André Matade Matsangaíssa, fundador e primeiro comandante da Renamo, tendo dirigido a organização quando esta iniciou a guerra civil contra o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), em 1977, até à sua morte em combate, em 1979.

André Matsangaíssa Júnior foi recebido na segunda-feira em Maputo pelo Presidente moçambicano, tendo anunciado a sua adesão ao DDR.

“O objetivo que me trouxe aqui é a paz no centro de Moçambique”, disse aos jornalistas, momentos após uma reunião com Filipe Nyusi e o enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas em Moçambique, Mirko Manzoni, na Presidência da República.

Matsangaíssa Júnior é o terceiro rosto da autoproclamada Junta Militar da Renamo que se rende, depois de João Machava e Paulo Nguirande, dois outros membros influentes daquele grupo que contesta a liderança da Renamo e acusa o atual líder do partido de ter desviado o espírito das negociações de paz com o Governo.

A autoproclamada Junta Militar da Renamo, liderada por Mariano Nhongo, antigo dirigente de guerrilha, é acusada de protagonizar ataques armados contra civis e forças governamentais em estradas e povoações das províncias de Sofala e Manica, centro de Moçambique, incursões que já provocaram a morte de, pelo menos, 30 pessoas desde agosto do ano passado.