Início Mundo Guerra está a provocar limpeza étnica no Tigray, diz relatório dos EUA

Guerra está a provocar limpeza étnica no Tigray, diz relatório dos EUA

Um relatório interno do governo dos Estados Unidos, obtido pelo The New York Times, revela que forças do governo etíope e combatentes de milícias aliadas estão a conduzir uma campanha sistemática de limpeza étnica no Tigray, a região no norte da Etiópia que está a ser devastada por uma guerra que começou em novembro.

O relatório foi elaborado no início deste mês e descreve o Tigray como uma região de aldeias desertas e casas saqueadas, onde se desconhece o paradeiro de dezenas de milhares de pessoas.

Combatentes e soldados da região vizinha de Amhara, que entraram no Tigray com o intuito de apoiarem a ofensiva militar ordenada pelo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, estão “deliberadamente e eficientemente a levar à capitulação da população etnicamente homogénea do Tigray Ocidental através do uso organizado da força e da intimidação”, sublinha o documento do governo dos Estados Unidos.

“Aldeias inteiras foram gravemente danificadas ou completamente apagadas” do mapa, acrescenta o relatório.

Esta sexta-feira, a Amnistia Internacional já tinha publicado um relatório no qual revelou que soldados da Eritreia mataram de forma sistemática centenas de civis do Tigray na cidade de Axum durante um período de 10 dias, em novembro.

O agravamento do conflito no Tigray deverá ser o primeiro grande teste da administração Biden em África. Ao contrário de Donald Trump, que pouca atenção prestou ao continente e nunca o visitou no seu mandato, Joe Biden prometeu ter uma postura mais participativa.

Esta quinta-feira, durante uma conversa telefónica com o seu homólogo queniano, Uhuru Kenyatta, o presidente dos Estados Unidos abordou a crise no Tigray. De acordo com um comunicado da Casa Branca, os dois presidentes falaram da “necessidade de evitar a perda de mais vidas e garantir o acesso de ajuda humanitária”.

No entanto, Joe Biden e a sua administração têm sido relutantes em criticar diretamente o primeiro-ministro Abiy Ahmed. A conduta do laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2019 neste conflito já mereceu, por outro lado, críticas de líderes europeus e das Nações Unidas.

Ahmed lançou a ofensiva militar no Tigray no dia 4 de novembro após meses de tensão com o partido que lidera a região, a Frente Popular de Libertação do Tigray, que governou com pulso de ferro a Etiópia durante quase três décadas até à chegada de Abiy Ahmed ao poder em 2018.

Mas os principais abusos neste conflito não foram cometidos pelo exército da Etiópia ou pelas Forças de Defesa do Tigray, mas sim por outras forças que apoiam as pretensões de Ahmed nesta guerra.

Nesta altura, os soldados da Eritreia e os combatentes de milícias de Amhara – uma região que tem uma longa história de rivalidade com o Tigray – são quem enfrenta as mais graves acusações de abusos contra civis, incluindo violações, saques e massacres.

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