Início Mundo Doença desconhecida, medo e mentiras criaram tempestade de desinformação

Doença desconhecida, medo e mentiras criaram tempestade de desinformação

Ainda antes de ter declarado que existia uma pandemia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já alertava, em fevereiro de 2020, que existia uma “infodemia”, um neologismo com o qual se referia à disseminação rápida de textos, imagens e vídeos com desinformação e conteúdos enganosos sobre o novo coronavírus, por entre a enxurrada de informações nos meios de comunicação tradicionais e nas redes sociais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirmou que a par do combate à doença, havia outra luta em curso contra “‘trolls’ e conspiracionistas que difundem desinformação e põem em perigo a resposta à pandemia”.

Se muitos desses ‘trolls’ não têm rosto e muitos podem nem sequer ser humanos, antes mecanismos de inteligência artificial que “alimentam” os utilizadores das redes sociais com base no que os mantém ligados, os mais notórios tiveram e têm palco mundial.

Um estudo publicado pela universidade norte-americana de Cornell em outubro do ano passado nomeava o então presidente norte-americano, Donald Trump, como “o maior impulsionador da infodemia de desinformação” sobre a covid-19.

Numa análise de 38 milhões de artigos publicados entre janeiro e maio de 2020, os investigadores de Cornell descobriram que 2,9% deles espalhavam desinformação e que o nome de Trump surgia referido em 37% de toda a “discussão sobre desinformação”.

Quando a comunidade científica se lançava em ensaios e debates para encontrar terapias eficazes, Trump antecipou-se a toda as conclusões e declarou a hidroxicloroquina, um medicamento conhecido e eficaz contra a malária, como um remédio para a covid-19, pelo menos um cidadão do seu país não precisou de ouvir mais.

Leu “cloroquina” no frasco do líquido que usava para limpar o seu aquário, bebeu-o e morreu.

Na neblina dos primeiros dias da pandemia, mensagens nas redes sociais levaram centenas de iranianos a morrer por ingestão de metanol, propalado como remédio para a doença num país em que o álcool é proibido.

O ‘site’ CoronaVirus Facts Alliance, da responsabilidade da organização norte-americana Poynter Institute, conta hoje mais de 9.000 teorias, falsidades, boatos ou conspirações, algumas oriundas de muitas fontes diferentes, disseminadas em mais de 40 línguas e presentes em mais de 70 países.

Dúvidas legítimas sobre eficácia de vacinas, tratamentos ou medidas de contenção da pandemia são transformadas em armas de desinformação na boca errada.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, referiu-se em dezembro aos possíveis efeitos colaterais das vacinas da Pfizer e a propósito de a empresa se desresponsabilizar deles, afirmou que não há garantia de que as vacinas não transformarão quem as toma “num jacaré”.

Ainda hoje, no interior da Amazónia, o “mito do jacaré” persiste entre os povos indígenas, mesmo onde a Internet e as redes sociais não são uma presença tão forte, a par de outros mitos infundados espalhados por evangelistas que prejudicam as campanhas de vacinação, segundo disse à Lusa uma ativista indígena, Vanda Ortega.

No plano do combate às falsidades, a Comissão Europeia já pediu um reforço das regras na União para poder obrigar o Facebook ou Twitter a retirar informações falsas, ultrapassando a lógica de autorregulação que é hoje a regra entre as plataformas das redes sociais e comércio eletrónico.

Em junho passado, a Comissão afirmava ter provas da existência do que chamava “propaganda chinesa” sobre a covid-19, acrescentada à desinformação russa e à propagação de informação falsa por atores europeus.

Com o confinamento, as redes sociais ganharam ainda mais relevância na disseminação de informação: Em outubro passado, o ‘site’ estatístico Statista indicava que 46% dos norte-americanos consumia desde março todas as suas notícias nas redes sociais.

Outra estatística concorrente, oriunda de um estudo britânico feito em junho de 2020, indicava que mais de metade das pessoas que negavam a existência do SARS-CoV-2, o coronavírus que provoca a doença covid-19, consumia o que pensava serem notícias no Facebook e que cerca de 60% das que acreditavam numa ligação entre o novo coronavírus e a rede de dados 5G tinha ficado com essa ideia por causa de ver vídeos no Youtube.

No outro lado do espetro, os meios de comunicação tradicionais amplificam mensagens das autoridades de saúde que são por vezes confusas e contraditórias e até alarmistas, de acordo com especialistas em saúde pública.

Em pleno pico da epidemia em Portugal, no final de janeiro, um médico e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública alertava para o alarmismo em torno do anúncio de novos casos diários, apontando que se ouvia diariamente falar em milhares de “casos de covid”, quando na verdade se falava de casos de infeção, dos quais apenas 5% seriam efetivamente doença.

Outra especialista em comunicação de saúde e professora na Escola Social de Comunicação Social de Lisboa, Andreia Garcia, dizia à Lusa, em janeiro, que “mais do que incutir o medo ou a culpa” a estratégia de comunicação das autoridades deveria “reforçar a esperança e a união”.

No próprio portal do Serviço Nacional de Saúde, medo e culpa são o tom claro de alguns dos pequenos vídeos realizados para divulgar o risco da covid-19, como aquele que é “Para quem ainda não percebeu, para quem não quer perceber, para quem é contra, para quem não acredita”, como lê o narrador sobre o som de um monitor cardíaco, enquanto uma fotografia mostra “o último ‘post’ do Júlio”, em que várias pessoas aparecem juntas sem máscara.

Em outro vídeo chamado “Última Ceia”, a imagem de um idoso entubado numa cama de hospital surge acompanhada do som de vozes alegres num encontro de família.

Num artigo publicado na revista The Atlantic, a socióloga turca Zeynep Tufekci, identifica várias “falácias e armadilhas” em que a comunicação de saúde pública caiu repetidamente ao longo dos últimos 12 meses, entre as quais “a desconfiança e o paternalismo que alguns especialistas e agências de saúde pública demonstraram em relação ao público”.

Considera que meios de comunicação tradicionais e redes sociais se ocuparam a procurar censurar e envergonhar comportamentos de forma “não científica e desorientada”, como a criticar pessoas por estarem na praia ou em locais exteriores sem máscaras.

Tufekci, que analisa as mudanças sociais induzidas pelas novas tecnologias e se tem debruçado sobre os efeitos da pandemia, defende que, mais do em que regras que pareciam claras e depois foram contraditas, como as que se referiam ao uso de máscara, as autoridades deviam ter apostado em explicar bem os mecanismos de transmissão.

Isso, argumenta, teria dado aos cidadãos dados para “fazerem um cálculo informado sobre o risco em diferentes cenários”, sobretudo, a diferença entre contágio em espaços interiores e espaços exteriores.

“O risco nunca pode ser completamente eliminado. A vida exige mais do que tentativas fúteis de reduzir o risco a zero. Fingir que se pode fazer desaparecer complexidades e equilíbrios com absolutismo é contra-producente”, afirma.

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