Início Mundo "Grupos" usam o ambiente para evitar acordo de comércio UE-Mercosul

"Grupos" usam o ambiente para evitar acordo de comércio UE-Mercosul

O Mercosul firmou um acordo de comércio com a UE em 2019, dentro de uma negociação que durou 20 anos, mas os países europeus “perceberam repentinamente que certos interesses foram afetados” e “esses grupos de interesse usaram o tema do meio ambiente para atrasar o acordo”, assegurou Araújo, citado pela agência France-Presse, em Brasília.

Não estou dizendo que a preocupação com o meio ambiente não seja legítima“, acrescentou o ministro brasileiro.

O acordo de livre comércio entre a UE e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), integrado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, foi fechado em 28 de junho de 2019, após 20 anos de negociações.

O pacto abrange um universo de 740 milhões de consumidores, que representam um quarto da riqueza mundial, mas o processo de homologação desacelerou desde o aumento dos incêndios na Amazónia brasileira.

A França e a Alemanha, em particular, lamentaram a falta de compromisso do Governo brasileiro liderado pelo Presidente, Jair Bolsonaro, com a defesa do meio ambiente.

Araújo explicou que o acordo “afeta também interesses do Brasil” e citou a produção de vinhos como um exemplo.

“O Brasil, como os grandes produtores Argentina e Uruguai, tem feito sacrifícios para acomodar este setor, onde os interesses são enormes na França e em outros países europeus”, indicou.

“É importante desmistificar a ideia de que o acordo Mercosul-UE contribuiria para a destruição da Amazónia. Estamos prontos para mostrar que não é esse o caso”, acrescentou.

Para desbloquear a ratificação do acordo, a UE propôs no mês passado uma declaração conjunta complementar sobre compromissos com o desenvolvimento sustentável, incluindo a redução do desflorestamento na Amazónia brasileira, que cresceu muito nos dois primeiros anos de mandato do Presidente brasileiro.

“Concordamos com o princípio de algum tipo de compromisso adicional”, disse Araújo, mas “é importante que seja (…) com reciprocidade, porque não é só o Brasil que deve se comprometer com o meio ambiente”.

O maior crítico europeu do Governo brasileiro é o presidente francês Emmanuel Macron, que ficou alarmado com os incêndios na Amazónia brasileira em 2019.

Em janeiro passado, Macron disse que a Europa deveria reduzir a sua dependência da soja brasileira porque isto “endossa o desflorestamento na Amazónia”.

“Desde o início das discussões [do acordo UE-Mercosul], nos anos 1990, houve uma grande resistência da França”, apontou o chefe da diplomacia brasileira.

“Há, não só na França, uma falta de compreensão da realidade do meio ambiente no Brasil”, acrescentou Araújo.

Um relatório oficial da França estimou, no final de 2020, que o acordo UE-Mercosul aumentaria o desflorestamento no Brasil em 25%.

Os agricultores franceses, que são os maiores produtores de carne bovina da Europa, veem esse acordo como “um desastre”, pois ele autorizará a importação de 99 mil toneladas de carne bovina do Mercosul com tarifa alfandegária de 7,5%.

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