Início Mundo Medo ainda marca julgamento de um ex-padre em Timor-Leste

Medo ainda marca julgamento de um ex-padre em Timor-Leste

Testemunhas, vítimas e outros que conheciam o abuso — incluindo pessoas arroladas no processo -, preferem não falar, apontando em alguns casos o sentimento de deferência à figura de Richard Daschbach, 84 anos.

Mesmo depois de já ter sido expulso do sacerdócio e oficialmente condenado pelo Vaticano, Daschbach continua a ser venerado por muitos que o chamam de ‘amo’ e que minimizam ou ignoram os crimes de que é acusado.

Em vez disso, destacam a sua ação humanitária e até o apoio que deu durante a ocupação indonésia, em alguns casos, misturando verdades com mitos.

Quando recentemente cumpriu 84 anos, por exemplo, alguns dos seus apoiantes divulgaram no Facebook uma foto sua em roupa tradicional timorense.

A publicação teve centenas de votos de parabéns e até um ‘tag’ à página de uma das suas alegadas vítimas.

Mesmo que os rumores circulassem, o assunto raramente passou de meias conversas ou referências em segredo, situação que teria continuado se uma das vítimas não tivesse feito chegar a sua denúncia de abusos à congregação.

Richard Daschbach, de 84 anos, detido em 2019, e que foi já punido pelo Vaticano, é acusado de abusar de pelo menos duas dezenas de crianças no orfanato onde trabalhava, o Topu Honis, localizado em Oecusse.

O Ministério Público acusa ainda Daschbach dos crimes de pornografia infantil e violência doméstica.

Sem precedentes em Timor-Leste, por envolver um antigo membro da Igreja, o caso tem suscitado polémicas e intensos debates.

Fontes atuais e passadas do setor judicial timorense, ouvidas pela Lusa, destacam a importância do processo, admitindo que o resultado, seja ele qual for, pode ter um impacto significativo, silenciando ou dando confiança a outras vítimas.

Parte dos debates centra-se na perceção pública de que Daschbach tem tido apoio de algumas individualidades em Timor-Leste, nomeadamente dois ex-Presidentes da República, Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak, este último atual primeiro-ministro.

Fontes judiciais indicaram à Lusa que Xanana Gusmão foi mesmo arrolado como testemunha da defesa, entre um leque de várias pessoas, a maioria ligada ao orfanato onde os crimes terão sido cometidos.

Em 2018, por exemplo, já depois de ter confessado os seus crimes à congregação — o Vaticano estava a começar o processo que acabaria na sua expulsão do sacerdócio -, Daschbach foi visitado por Taur Matan Ruak e pela sua mulher, Isabel Ferreira, na sede da SVD, em Díli.

Uma visita em que, explicou na altura Yohanes Suban Gapun, supervisor regional da SVD, Taur Matan Ruak pediu para que deixassem o ex-padre voltar para Oecusse.

“O senhor Taur Matan Ruak e a sua mulher vieram visitar-nos e falaram com Daschbach. Também me pediram se por favor o deixava voltar a Oecusse porque muitas pessoas gostam dele ali e ainda o respeitam muito. Por favor deixem-no ir para Oecusse também porque está velho e deixem que morra lá em paz”, contou.

Questionado pela Lusa em 2019 sobre o motivo dessa visita, Taur Matan Ruak disse que o fez por questões de respeito.

“Eu não tinha intenção de passar cartão de imunidade para o padre. Simplesmente, como ser humano, por questão de respeito, visitamos para saber o que se passava e manifestar a nossa preocupação sobre as questões”, disse.

Ainda mais evidente tem sido o apoio dado pelo ex-Presidente Xanana Gusmão, que começou a ser notado publicamente em outubro do ano passado quando a Juu’s, que representa as vítimas, apresentou uma providência cautelar contra a Arquidiocese de Díli, para travar a publicação de um polémico relatório sobre o caso preparado pelo então responsável da Comissão de Justiça e Paz.

Xanana Gusmão, que esteve no exterior do Tribunal de Díli com uma manifestação organizada de apoio à diocese, foi arrolado como testemunha porque uma cópia do relatório lhe tida sido dada e porque posteriormente enviou uma cópia à Juu’s.

No seu depoimento, o líder timorense acabou por se desviar várias vezes do propósito da audiência, questionando o facto de haver acusações contra o ex-padre só recentemente, apesar de ele estar há muito tempo em Timor-Leste.

“Tem de haver justiça, mas a justiça tem de ser justa, obedecer a procedimentos, critérios que dignifiquem a própria justiça. Percebi que havia neste caso alguma coisa que não estava de acordo com as regras de investigação”, disse na altura à Lusa.

Mais polémica foi a recente visita que Xanana Gusmão fez à casa em Díli onde Daschbach estava em prisão domiciliar, por altura do aniversário do arguido, e sobre a qual informou alguma imprensa timorense, distribuindo depois um comunicado que foi praticamente publicado na íntegra em vários jornais.

A visita levou três filhos do ex-presidente a escreveram cartas às alegadas vítimas, lamentando que o pai tenha visitado Daschbach.

A cobertura noticiosa dessa visita suscitou críticas do presidente do Conselho de Imprensa timorense, Virgílio Guterres, que considerou que as notícias na imprensa nacional tentaram “branquear” o ex-padre norte-americano.

Xanana Gusmão não reagiu até agora à polémica, mas na quinta-feira viajou com uma comitiva a acompanhar Daschbach no ferry que o transportou de Díli para Oecusse.

Mateus Assunção Mendes, superintendente-chefe e comandante da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), confirmou à Lusa que Xanana Gusmão, Daschbach e o resto da comitiva estão alojados no mesmo hotel em Pante Macassar, capital do enclave.

“Sim, estão no mesmo local”, confirmou.

A Lusa tentou várias vezes falar com Xanana Gusmão, sem êxito.

Outro fator que tem condicionado o ambiente em torno ao caso tem sido a reduzida atenção da quase totalidade da comunicação social timorense que, em algumas situações, chegou mesmo a ser acusada pelo Conselho de Imprensa de estar a tentar “branquear” Daschbach.

Exceção para a publicação Tempo Timor, a primeira a noticiar o caso do ex-padre e que apresentou já testemunhos de vítimas e detalhes do caso, e a publicação Néon Metin que também tem escrito sobre o caso, incluindo publicando recentemente testemunhos de vítimas.

José Belo, o jornalista da Tempo Timor que, com a jornalista Tjistske Lingsma, primeiro noticiaram caso, diz à Lusa que tem sido difícil convencer as pessoas a falar sobre o caso.

“É muito difícil convencer as pessoas a falar. Quando planeamos entrevistas, todos preferem ficar calados. Algumas pessoas olham para este senhor como um deus”, disse à Lusa.

O julgamento, que decorre à porta fechada, começa na segunda-feira no Tribunal de Oecusse em Pante Macassar.

A PNTL tem previsto instalar um perímetro de segurança em torno ao edifício.

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