Início Mundo China requer análise da NATO mas foco não sai do espaço euro-atlântico

China requer análise da NATO mas foco não sai do espaço euro-atlântico

 

“A China cria vários desafios aos Aliados, mas isso, de nenhuma maneira, substitui as ameaças existentes no espaço euro-atlântico. Ainda que o nosso grupo apele a uma maior atenção à China, incluindo através do desenvolvimento de parcerias com países que partilham os mesmos valores no Indo-Pacífico, também somos inflexíveis na ideia de que a NATO deve continuar a cumprir as suas missões de defesa e dissuasão no espaço euro-atlântico“, destaca Tania Latici, co-coordenadora do grupo de Líderes Jovens convocado pelo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, para contribuir para o processo de reflexão NATO 2030, para projetar o futuro da Aliança.

Numa altura em que Jens Stoltenberg apresentou as primeiras propostas decorrentes dessa iniciativa aos ministros da Defesa da NATO esta semana, o atual deputado e ex-ministro da Defesa alemão, Thomas de Maizière, refere à Lusa que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) “é, e continuará a ser”, uma “aliança transatlântica“.

“Nós não estamos preparados, e não devemos estar, para ampliar as regiões de atividades ligadas ao artigo 5º [o princípio que requer que os Estados-membros auxiliem outro Aliado em caso de ataque] à área do Pacífico. (…) [Aí], a NATO só pode ter um papel político, não um papel de aliança de segurança e de defesa”, diz De Maizière, copresidente do grupo de especialistas que publicou um relatório sobre o futuro da NATO em novembro, a pedido de Stoltenberg.

De Maizière defende, no entanto, a elaboração de “alianças políticas com democracias” no Indo-Pacífico — enumerando países como a Austrália, a Nova Zelândia ou a Coreia do Sul — , por considerar que a China é um ator que “muda as regras do jogo” e pode “vir a ser um problema para a coesão da NATO”.

“Nos últimos anos, um dos principais problemas da NATO é que, quando havia o receio de que um tema pudesse minar a coesão [da Aliança], então a reação era evitar discutir esse tema. A China é um bom exemplo”, afirma.

Nesse âmbito, o responsável alemão diz que, ainda que possam existir divergências entre Aliados sobre a postura a adotar frente a Pequim, a NATO deve estabelecer um “fórum” onde se abordem discussões de segurança, de maneira a definir uma “abordagem comum”, nomeadamente sobre a China.

“A pior resposta é evitar discussões porque se tem, de facto, medo da coesão”, destaca.

Também Carlos Gaspar, investigador português do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), reconhece que a “deslocação do centro de gravidade da competição internacional da Europa para a Ásia, e do Atlântico para o Indo-Pacífico”, é uma “realidade reconhecida pelos Aliados” e considera que isso obriga a um “reforço” da “coordenação estratégica e militar” entre estes.

“Essas mudanças vão dominar a política internacional na próxima década e obrigam a um reforço da coordenação estratégica e militar entre os países ribeirinhos do Atlântico para garantir a segurança de todo o Atlântico e travar a penetração de potências hostis”, diz o investigador à Lusa.