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Brexit reforça necessidade de consultas políticas dentro da NATO

 

“A saída da Grã-Bretanha da UE faz com que a NATO tenha voltado a ser um quadro necessário para a concertação política entre Londres, Paris e Berlim”, diz à Lusa Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), numa altura em que o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, apresentou esta semana as primeiras propostas aos ministros da Defesa no âmbito do processo de reflexão NATO 2030, que ambiciona projetar o futuro da Aliança.

Thomas de Maizière, copresidente do grupo de especialistas encarregado por Stoltenberg de elaborar, em novembro, um relatório com recomendações neste âmbito, concorda “totalmente” com a ideia, e frisa a importância de utilizar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) para manter a UE próxima do Reino Unido e da Turquia.

“Seria uma boa maneira de manter a Grã-Bretanha a pensar de maneira europeia e tentar fazer com que a Turquia de Erdogan se mantenha ligada a ideias ocidentais”, refere o antigo ministro de Defesa alemão e atual deputado, em entrevista à Lusa.

Os dois responsáveis rejeitam assim a ideia de uma “autonomia estratégica” europeia, referindo Carlos Gaspar que a UE “não tem vocação militar”.

“Para lá da retórica sobre autonomia estratégica, os responsáveis políticos europeus devem reconhecer que o Presidente Biden representa uma última oportunidade para europeizar a NATO, mas esse processo deve resultar da concertação política entre os Estados Unidos e as principais potências, e não pela tentativa de transformar a UE num ‘pilar europeu’ da NATO, o qual, desde logo, excluiria a Grã-Bretanha”, refere o investigador.

De Maizière confessa “não perceber bem” o que a expressão ‘autonomia estratégica’ significa, mas revela “não gostar nada” desta se se referir a uma vontade de “querer ser totalmente independente em termos de defesa”, por considerar que é uma ideia “ingénua” e “perigosa”.

“É ingénua porque é totalmente impossível ter, por exemplo, dissuasão nuclear sem a América. E é perigosa porque pode ser confundida como um convite aos Estados Unidos para abandonarem a Europa”, frisa.

No entanto, caso o termo se refira a “mais responsabilidade europeia no desenvolvimento de mais capacidades” no seio da NATO, então diz estar “totalmente de acordo”, porque permitirá que a NATO e a UE falem mais “com uma única voz”.

“Depois do ‘Brexit‘, temos países europeus importantes que são membros da NATO e não são membros da UE, é o caso da Grã-Bretanha e da Noruega, por exemplo, e a Turquia não é um país europeu, mas é um parceiro importante. (…) O conceito de autonomia estratégica é, no mínimo, pouco claro”, sublinha.

Já Tania Latici, co-coordenadora do grupo de Líderes Jovens convocado por Jens Stoltenberg para alimentar o processo de reflexão da NATO, diz não ver “incompatibilidades” entre a NATO e o conceito de autonomia estratégica, porque a “UE deixou muito claro que uma cooperação mais forte com a NATO” faz parte dessa lógica.

“Ao usar a NATO enquanto [plataforma de] consultas políticas, pode haver um maior alinhamento transatlântico. É necessário que todas as mãos estejam em cima da mesa. Não é do interesse de ninguém duplicar” as competências, sublinha Latici.